Herdade dos Lagos – biodiversidade e sustentabilidade

Fonte: Joana Amaral Paulo, Raquel Portanova de Almeida, Ana Tomás (ISA/CEF), Helena Manuel (Herdade dos Lagos)

A “Herdade dos Lagos, HDL” é uma exploração biológica e biodiversa, situada no Alentejo, Portugal, com uma área de 1000 ha.

O clima em Mértola é Mediterrâneo seco (Csa, segundo Köppen-Geiger) com uma temperatura média anual de 17,1 °C (18 °C em 2017) e uma precipitação média anual de 505 mm que ocorre na sua maioria durante os meses de Inverno (pt.climate-data.org). Dados recolhidos pela estação meteorológica da herdade mostram que a precipitação média anual entre 2000 e 2018 foi de 446,84, e apenas 281 mm em 2017! Os solos são na sua maioria litossolos, com fraca capacidade de retenção de água.

A exploração foi adquirida há 35 anos pela família Zeppenfeld e era uma área semidesértica devido à combinação do clima árido, solos pobres e décadas de agricultura intensiva. Os novos proprietários que tinham uma visão diferente, amiga do clima, investiram no planeamento e implementação de medidas para maximização da retenção de água. Algumas destas medidas foram plantar árvores, construir três novas barragens e reparar as já existentes que estavam danificadas. Em resultado a exploração conta com mais de 60% de área com árvores incluídas.  

Desde o momento de aquisição da exploração os novos proprietários preocuparam-se em alcançar e manter a sustentabilidade nas suas terras, diversificando as culturas e seguindo uma abordagem silvopastoril. Os resultados desta estratégia e investimento são agora, 35 anos depois, percetíveis pelos agricultores e comunidade da região. A herdade produz uma variedade de produtos biológicos: vinho, azeite, borregos, fruta, alfarroba e mel. O olival de 80 ha produziu o seu primeiro azeite biológico em 2015, com uma produção média anual de 1500 kg/ha que está atualmente a aumentar. 

Fotografia 1. Vista de duas das barragens da exploração. Junho de 2018. Foto de Ana Tomás

Durante os últimos 35 anos, têm sido plantados 300 ha duma nova cultura todos os anos, incluindo floresta, alfarrobal, amendoal, olival e vinha. O amendoal foi regado à plantação, não tendo sido bem-sucedido, devido sobretudo à falta de utilização de variedades bem-adaptadas. Esta foi uma lição cara, mas útil! Para aumentar o alfarrobal foram escolhidas variedades localmente bem-adaptadas. O primeiro alfarrobal foi plantado em 1997, em 55 ha, reconvertendo uma antiga área de sequeiro. Em 2002 foi enxertado e convertido a regadio (sendo a única área de alfarrobal regada na exploração). Está atualmente em plena produção.

Em 1999 foram instalados 85 ha de sequeiro segundo as curvas de nível. Esta área foi enxertada em 2002 e está atualmente no seu 6º ano de produção. A terceira área de alfarrobal foi plantada em 2002, e é o resultado da conversão de 122 ha do antigo amendoal. A enxertia ocorreu em 2004, e está no seu segundo ano de produção. Em 2007 foram instalados outros 18 ha de alfarrobal segundo as curvas de nível. Esta área encontra-se atualmente a iniciar a sua produção.

A densidade do alfarrobal é de 238 plantas por hectare (6 x 7 m) e em 2017 a produção total de alfarroba foi de 700 kg/ha, com uma precipitação média anual de 281 mm(!), o que claramente demonstra a importância vital de um planeamento e gestão cuidadosos!

A alfarroba colhida é depois enviada para uma fábrica local (um dos esforços de responsabilidade social) para ser moída, sendo exportada cerca de 75% para os EUA e Holanda, na maioria para forragem.

A exploração está a realizar um ensaio de sobrevivência para testar quais as árvores e arbustos estão melhor-adaptadas às condições locais para possível uso como sebes ou nas bordaduras, para a promoção de biodiversidade e talvez como forragem adicional, com as seguintes espécies: Rosa canina, Arbutus unedo, Olea europaea, Budleia davii, Viburnus tinus, Myrtus communis, Myopurum sp., Nerium oleander, Punica granatum, Pistacia lentiscus, Spartium junceum.

As necessidades em água da exploração são satisfeitas apenas com água própria apesar da localização semidesértica – devido a 35 anos de estratégia de maximização da retenção de água. Além das barragens,  um plano de irrigação cuidado e continuamente monitorizado pela gestora da exploração permite a poupança de água, assim como a utilização de culturas bem-adaptadas e o recuso a keyline management. Para prevenir as perdas de água e a erosão do solo forma colocadas barreiras protetoras, plantadas sebes e os charcos existentes foram melhorados.

Atualmente existe um rebanho de 1000 ovelhas, em regime de pastoreio rotacional holístico segundo as teorias de Allan Savory. O período máximo dentro de cada cerca é de 3 a 7 dias. Alem da produção de borregos o rebanho tem um papel importante na fertilização do solo, controla a biomassa do subcoberto no alfarrobal e vinha e também os rebentos ladrões no olival e alfarrobal. As ovelhas alimentam-se frequentemente da alfarroba deixada no chão em anos de produção baixa, quando a acolheita não é rentável.

 

Fotografia 2. Ovelhas a pastar no alfarrobal. Junho de 2018. Foto de: Ana Tomás

 

Fotografia 3. Detalhe de uma alfarroba. Foto de: Ana Tomás

A responsabilidade social é também uma preocupação importante dos proprietários. Estes reconhecem que o Alentejo é uma das áreas rurais europeias mais pobres. Além do trabalho e formação, a maioria dos funcionários vive na exploração. A maioria da mão-de-obra é feminina (60%) e o trabalho sazonal é contratado localmente. As produções próprias são partilhadas anualmente pelos funcionários.

Fotografia 4. Visita de equipas do ISA e EDIA à Herdade dos Lagos. Maio de 2018. Foto de: Ana Tomás

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