Tirando o maior partido possível da “terra comum”, usando agroflorestas

Fonte: Antia Villada and Rosa Mosquera

Dentro dos seus 3 milhões de hectares, a Galiza possui milhares deles sob um regime de propriedade tradicionalmente denominado "Monte Veciñal en Man Comum” (MVMC), que pode traduzir-se por “terra comum em propriedade da vizinhança”, semelhante aos baldios.

Este é um tipo de propriedade  germânico no qual a terra é propriedade dos seus habitantes que a perdem se deixarem de aí viver. A maior parte dos MVMC estão atualmente destinados a uso puramente florestal o que representa um perigo muito elevado de incêndio. O MVMC ‘De Carballo’ é um “baldio” atualmente constituído por mais de 50 famílias que são donas de cerca de 710 ha no total. Cerca de 270 ha dos 450 ha do MVMC estão a ser usados num sistema silvopastoril com cavalo galego (30 animais), enquanto cerca de 30 ha estão alocados para a criação de porcos Celtas (100 animais), ambos raças nativas do Noroeste de Espanha.

 
 
     
Sistemas silvopastoris com raças nativas de porco celta e cavalos galegos. Fonte: MVMC ‘De Carballo’
 
Desde 2008 que esta exploração tem vindo a diversificar a sua produção e a passar duma situação de plantações de pinheiro (Pinus radiata, P. pinaster e P.sylvestris), para um esquema agroflorestal mais diversificado. Inclui uma plantação recente de espécies de árvores nativas (bétulas, castanheiros, nogueiras e cerejeiras) em combinação com a produção de carne (o porco e cavalo nativos) e outros recursos complementares como mel, cogumelos e resina de pinheiro. As principais razões pelas quais a comunidade ‘De Carballo’ decidiu iniciar um sistema silvopastoril de gestão da terra incluíram razões produtivas, ambientais e sociais:
• aumentar e diversificar a produção
• reduzir e controlar a biomassa (vegetação arbustiva e o subcoberto florestal) de modo a prevenir os incêndios florestais
• aumentar o valor estético da paisagem
• alcançar um maior envolvimento da comunidade nas tarefas do dia-a-dia da gestão das suas terras 
 
Embora a maior fonte do rendimento do MVMC ‘De Carballo’ ainda provenha das plantações de pinheiro, a comunidade tem vindo a conseguir introduzir com sucesso usos agroflorestais complementares com retornos a curto prazo (ganhos anuais) e a reduzir os riscos (sobretudo de incêndio). A implementação de sistemas agroflorestais também melhorou a gestão florestal pois ajudou a tornar mais baratas e simples as práticas silvícolas, como as podas e os desbastes. A gestão agroflorestal também tornou mais fácil o aumento do valor dos produtos florestais do MVMC ‘De Carballo’, pois esta floresta é a primeira na região a obter ambas as certificações PEFC e FSC. No entanto, uma das principais preocupações atuais prende-se com o elevado número de ataques de lobos aos cavalos (nalguns anos a mortalidade chega aos 80 % do número de potros). A comunidade tem vindo a pedir mais apoio da administração local e soluções práticas para manter o gado ao ar livre e os lobos a coexistirem numa mesma paisagem. 
  
 
     
Produção de mel e cogumelos nas florestas do MVMC ‘De Carballo’. Fonte: MVMC ‘De Carballo’

 

As decisões sobre gestão da terra são tomadas em assembleia e a comunidade gere não só a terra, a floresta e os animais, mas também leva a cabo atividades sociais, como atividades tradicionais, educacionais e culturais (por exemplo, eventos informativos, passeios, proteção e promoção dos locais de interesse arqueológico dentro das suas terras, um sistema tradicional de pastoreio dos cavalos conhecido como ‘rapa’ que conta com mais de 100 visitantes (ver fotografias), entre outros). O MVMC ‘De Carballo’ também integra vários projetos de investigação como o AFINET (sendo um dos membros mais ativos da RAIN espanhola) e vários grupos operacionais de gestão florestal da biomassa, sistemas agroflorestais com porcos Celtas, e sobre o aperfeiçoamento da coexistência entre gado e lobos. Para proteger os porcos dos lobos desenvolveram um sistema automático de recolha dos animais à noite baseado num estímulo de comida e som (ver video) e estão de momento a tentar obter financiamento para desenvolver um sistema semelhante, mas móvel, para recolher os porcos que estão ao ar livre nas florestas.

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